[Livro em pré-venda – envio a partir de 10 de março]
Em Rarefeito, a poesia se apresenta como um estado do mundo: algo em suspensão, atravessado por forças simultâneas de colapso e continuidade. Desde os primeiros poemas, o livro estabelece uma tensão entre o curso ordinário da vida e a sucessão de abalos – naturais, históricos, íntimos – que a atravessam. “Vou seguindo o meu caminho”, repete a voz poética, não como gesto de apaziguamento, mas como modo de existir num cenário instável, saturado de sinais, notícias, presságios.
Os poemas avançam em longos fluxos verbais, num movimento que lembra deriva, inventário e exploração ao mesmo tempo. O olhar percorre paisagens amplas e minúsculas: cidades, florestas, abismos marinhos, quartos, objetos sobre a mesa, caixas de papelão, motores, semáforos. Tudo comparece como matéria sensível, exposta a uma atenção que rarefaz o real para torná-lo mais nítido – ou mais enigmático. A linguagem não busca a contenção, mas a acumulação significativa: enumera, insiste, retorna, como se cada poema tentasse cercar aquilo que não se deixa fixar. Há uma imaginação cosmológica em diálogo constante com o cotidiano. O espaço sideral convive com o corpo, o tempo geológico com o instante doméstico, o oceano profundo com a memória pessoal. Água, sangue, sono, húmus, voo, silêncio: elementos recorrentes que organizam uma poética da porosidade, em que tudo circula, verte, sangra, evapora. Mesmo quando o tom se torna sombrio – nos poemas abissais, nas imagens de ferida, sangria ou colapso –, persiste uma atenção quase ética ao detalhe, ao frêmito mínimo que ainda pulsa. Rarefeito é, assim, um livro de atravessamentos. Entre o excesso e o esvaziamento, entre o ruído do mundo e o “quase silêncio”, a poesia se afirma como espaço de escuta e de exploração: um modo de habitar a instabilidade sem reduzi-la, aceitando a incompletude como forma e a busca como destino.



