Entre o português e o espanhol, a proximidade é tamanha que muitas vezes engana. A aparente familiaridade produz confiança – e logo depois, desconcerto. É dessa tensão que nasce A angústia da semelhança, de Wagner Monteiro: um livro que transforma a experiência cotidiana de professores, tradutores e estudantes em problema teórico rigoroso.
Partindo de uma questão aparentemente simples — por que o espanhol “evita” o pronome sujeito enquanto o português brasileiro tende a explicitá-lo? —, o autor desmonta respostas fáceis e desloca o debate do terreno exclusivamente sintático para a interface entre sintaxe, pragmática e discurso. Se ambas as línguas compartilham o chamado parâmetro do sujeito nulo, o que explica, então, suas diferenças de uso? A hipótese que orienta o estudo é clara: o aparecimento ou a elisão do pronome não é mero reflexo estrutural, mas escolha argumentativa.
Com base em um corpus que reúne entrevistas produzidas no Brasil e na Espanha e fragmentos de contos de Rubem Fonseca confrontados com sua tradução ao espanhol, Wagner Monteiro investiga como a explicitação do pronome pode reintroduzir referentes, demarcar tópicos, focalizar informações e instaurar contrastes. O gesto do falante – ou do tradutor – revela-se, assim, profundamente estratégico. Ao analisar gêneros discursivos distintos e articular categorias como tópico, foco e argumentatividade, o livro propõe um caminho metodológico consistente para o estudo contrastivo entre línguas próximas.
Sem se filiar estritamente ao gerativismo, mas dialogando com ele de modo crítico, a obra demonstra que a compreensão do pronome sujeito exige atenção aos contextos de produção e às intenções enunciativas. O resultado é um estudo descritivo e comparativo de grande utilidade para tradutores, linguistas e pesquisadores da linguagem.
Mais do que esclarecer um ponto específico da gramática, este livro ilumina a zona sensível onde duas línguas irmãs deixam de coincidir — e é precisamente nesse desvio, nessa diferença sutil e produtiva, que se revela a riqueza de seu contraste.


Campos de Carvalho contra a Lógica 