[Livro em pré-venda – envio a partir de 15 de maio]
Há livros que contam histórias; outros parecem inventar, a cada página, a própria ideia de narrativa. A praga dos jacarés (e outros falsos testemunhos) pertence decididamente a este segundo grupo – um território onde o conto é menos forma fixa do que campo de experimentação, onde cada texto testa os limites do que pode ser dito, narrado ou sequer sustentado como “verdade”.
Pedro Tebyriçá se move com desenvoltura entre registros: do microconto quase aforístico à paródia, do delírio narrativo à sátira burocrática, da confissão enviesada ao pastiche literário. Há algo de lúdico e inquietante nessa oscilação constante, como se cada história fosse também um comentário sobre o próprio ato de narrar – e, sobretudo, sobre a fragilidade de qualquer testemunho.
Nos textos iniciais, já se delineia uma poética do deslocamento. Um livro abandonado sobre a mesa carrega o peso do mundo; uma corrente de azar e sorte se constrói como farsa meticulosamente documentada; seres minúsculos e vorazes infestam as ruas de um cotidiano em colapso. O absurdo aqui não é exceção: é método. E, no entanto, por trás do humor, há sempre um ruído persistente – algo entre a paranoia e a lucidez, como se o narrador soubesse que toda realidade é, em alguma medida, uma ficção compartilhada.
Ao longo do volume, figuras familiares – o artista, o servidor público, o herói, o amante, o cidadão comum — surgem sob luz oblíqua, desmontadas por um olhar que combina ironia e estranhamento. A linguagem, por sua vez, não se contenta em servir à história: ela se expõe, se torce, se comenta, às vezes se sabota. Há ecos e jogos intertextuais, mas sempre filtrados por um humor muito particular, que vai do escatológico ao filosófico sem pedir licença.
Se estes são “falsos testemunhos”, não é por falta de convicção – mas porque, ao fim, talvez todo testemunho o seja. E é justamente nesse intervalo entre o que se afirma e o que escapa que o livro encontra sua força: um conjunto de narrativas que nos convidam a desconfiar, rir e, sobretudo, continuar lendo – ainda que não haja garantia alguma de que sairemos ilesos.


