Destraços

R$55,00

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Destraços

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ISBN: 9786559056279 REF: 9786559056279 Categoria:

Há uma dimensão ou intensidade de existir que só acessamos se visitamos uma instalação de Lygia Clark, como “A casa é o corpo”, não há outra maneira no mundo de acessar aquele universo que se abre ali. O mesmo ocorre se mergulhamos na Água viva, de Clarice Lispector, ou se ouvimos a música de Olivier Messiaen. Destraços, excepcional livro de estreia de Isabela Otechar, excepcional em qualquer literatura, é dessa família de obras. Obras a que retornamos não só para ouvir certa harmonia, ler certas palavras ou roçar certas texturas. Obras a que retornamos atrás daquele estranho zumbido no ouvido que provocam, daquele tremor nas mãos, daquela sensação de abismar-se.

Sigamos a autora, e comecemos pelo poema de abertura, o belíssimo “Autorretrato em caligrafia”, que contém, encapsulados, vários do temas que serão desenvolvidos ao longo do livro, da oceânica sensação de travessia até os dedos das mãos (as mãos, essa obsessão do livro, que nos faz pensar no clássico “Elogio da mão”, de Henri Focillon: “A face humana é, sobretudo, um composto de órgãos receptores. A mão é ação, ela cria e, por vezes, seria o caso de dizer que pensa” ), da nebulosa de Órion à lasca de azul-cobalto. Nesse poema, destacada do nome da autora, fica pairando a letra “I” (“a forma que faz / esse I / pendurado em / minha assinatura”), pairando dependurada entre o abismo da assinatura e o do “Eu”, em inglês, que se dá em autorretrato caligráfico, autorretrato que não se quer espelhamento, autorretrato de que se destaca e problematiza o duplo “r”, essa letra em que o erro se torna homofonicamente imperativo. Aprender a escrever tem a ver com traçar linhas, fios. Escrever poesia tem a ver com destraçar formas e conteúdos, o que encapo e o que me encapa.

Outro abismo? Na abertura de “O mistral não é o mistral”, lê-se: “fazer algo com a poeira /do chão, os restos de folha/desembrulhados/ é sobreviver ao vento”. Todos os elementos aí reunidos são velhos conhecidos nossos, a poeira, o chão, as folhas, o vento. Mas a forma como a poeta os reúne gera um estranhamento, revela novas formas de nos relacionarmos com tais clássicos do lirismo, cria um novo catálogo de possíveis. Ao vento, se sobrevive; os restos são “desembrulhados” da folha (pelo vento? que a desembrulhou da árvore?); a poeira não é mais o que se desfez, mas aquilo com que se deve “fazer algo”.

Gostaria de comentar os intensos poemas sobre a família, os poemas de nada óbvia sensualidade, abordar o tema das travessias (por terra, mar e astrológicas), a marcha das contravozes atravessando as páginas em itálico obsessivo, e, muito especialmente, gostaria de ficar me debruçando aqui sobre as muitas variações de luz ao longo do livro, como quem fica apenas olhando para o céu. Mas na impossibilidade de dar a ver toda a riqueza de temas e proposições desse livro (repito: excepcional) no espaço de uma apresentação, destaco apenas essa qualidade: a capacidade de nos abismar, de demonstrar que, devidamente observada, toda coisa tem seu pequeno abismo. De som e de sentido. Em cujo mar de derivas vale a pena mergulhar, e aprender a nadar.

Carlito Azevedo

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