[Livro em pré-venda – envio a partir de 25 de março]
Há livros de poesia que nascem do atrito com o mundo; outros, de uma arquitetura rigorosa do pensamento. Aqui, as duas forças se entrelaçam. Natalie Lima atravessa a fronteira entre teoria e invenção e faz da linguagem um campo de risco – e de pulsação.
Os poemas se movem entre esquinas reais e simbólicas: a Avenida Atlântica, a Urca, Vigo, Veneza, a Praça Cruz Vermelha, Cascadura. Mas nenhuma geografia é estável. O mundo comparece como memória, filme, mito, notícia, ruína e sonho. Violeta Parra canta ao lado de Pasífae; El Cid divide o espaço com Magritte; Hilda Hilst ressurge em chave sarcástica e devota, Luís de Camões, Martim Codax e Adília Lopes em compasso de volúpia e malogro. Entre o mar e a rua, entre o museu e o metrô da Carioca, a voz que fala sabe que “escrever / como quem limpa / uma ferida” implica tocar tanto o sal quanto a lâmina.
Uma atenção aguda é dada ao corpo – que envelhece, deseja, cai de bicicleta, mastiga estrelas e lutadores de boxe – numa recusa deliberada da ingenuidade. A poeta desmonta fetiches, interroga o amor, desconfia das narrativas prontas, mas não abdica do canto. Sua dicção alterna concisão e vertigem, ironia e gravidade, compondo um tecido em que a erudição não pesa: vibra.


Cadernos de alguma poesia 
