[Livro em pré-venda – envio a partir de 26 de março]
Cleo Vaz se recusa a habitar a superfície: mergulha para fazer sangrar, sussurra para fazer vibrar e, sobretudo, confronta a ordem estabelecida. Em Feminina e visceral, emerge uma voz que ausculta e revela, com agudeza, as pulsações do corpo e do espírito, aquilo que a leitura absorve como um jorro onírico de memórias sugestivas, que moldam a identidade de um livro multifacetado e etéreo, além do rastro de ruínas que a própria linguagem deixa pelo caminho. O feminino aqui não é um tema, mas uma constelação de experiências, ora míticas, doces ou monstruosas, ora urbanas, atravessadas por ironia, denúncia e provocação.
Plena de multidões, a poeta articula uma lírica elegante, porém nada tímida, uma poética de alta voltagem que provoca um choque elétrico a transbordar alegorias, convocando personas ora públicas, ora íntimas, num gesto caleidoscópico de sobreposição de imagens. Como numa espiral fantasmagórica, surgem versos agressivos, versos descontraídos, versos delirantes, capturados no limiar entre sonho e abismo. Também se anunciam mulheres que perambulam por bairros, por parques, por terreiros, por cidades estrangeiras e por outras geografias afetivas, flanêuses que dançam, que amam e, sobretudo, que pensam e concebem realidades suntuosas. Além de arquétipos, são, antes de tudo, manifestações da mente de uma verdadeira artista.
Trata-se de uma escrita pungente, plena de sentidos, que ousa se afirmar também como resistência, insurgência contra a banalidade de uma pulsão de morte que assombra, ronda e ameaça o tempo inteiro. Cleo Vaz se debruça sobre as próprias vísceras e as expõe aos nossos olhos, para delas extrair a matéria-prima da poesia. “[O] corpo é multilíngue / fala com o salto do coração / dentro dele há uma mulher / que grita para sair”. O ritmo é o da pulsação interna e do mundo, da travessia entre sonho e realidade, do substrato vivo de um inconsciente que se debate em um corpo que grita.
Com domínio técnico e radical sensibilidade, Feminina e visceral é um pequeno espelho estilhaçado nas mãos de quem o lê. Nele, cada fragmento cortante reflete uma mulher singular que brada seus versos para desestabilizar o senso comum.
Larissa Lins


