Por meio de rigorosa pesquisa, Leandro Duarte Montaño, nos brinda em “Leituras para além de livros: “civilizações”, escravidão, educação, africanização: a “formação” e o “formar-se” do povo e os riscos à ordem escravista no século XIX”, com estudo basilar acerca das transformações do fenômeno da escolarização e da instrução, na segunda metade do século XIX no Brasil, e seus diálogos com instituições políticas, intelectuais e diferentes grupos sociais – livres, libertos e escravizados. Por meio de uma escrita particularmente notável, suas pesquisas, análises e reflexões – com sólida base empírica – apresentam ao leitor questões e problematizações, que o levaram a identificar significados, tensões, negociações, conflitos e dissimulações em busca do saber ler e escrever em uma sociedade onde a maioria dos sujeitos, independente da condição jurídica, era analfabeta.
E não só! Na segunda metade do século XIX, a educação formal no estado imperial brasileiro, era negada por lei aos escravizados e africanos livres. Identificando sujeitos políticos, africanos e descendentes em constantes movimentos, Montaño, mobilizando como lente privilegiada de análise a “história vista de baixo”, observa plurais expectativas dos grupos populares de modo geral, e dos escravizados e libertos de modo específico. Constatando relações dialógicas entre os diferentes sujeitos e grupos sociais forjados por meio do tráfico transatlântico, o autor destaca que transgressões foram possíveis.
Sua materialização, a história do professor preto Pretextato dos Passos e Silva, evidencia o pleito dos subalternizados por educação formal, e não somente a outra: a informal. Para o autor, “esse protagonismo negro que envolveu alunos, pais e um professor”, pode ser lido como “luta antiescravista e antirracista dentro da estrutura imperial”. Experiências históricas educacionais, forjadas por meio de “pedagogias vivas” desenvolvidas e aplicadas por meio de exemplos, conforme demonstra o autor, fizeram parte do cotidiano de escravizados e libertos.
Deste modo, certamente, a obra aqui apresentada está devidamente à altura do “peso social e político do tema”. Tornando esta obra desde já, leitura obrigatória!
Iamara da Silva Viana
Professora adjunta de ensino de História do departamento de estudos aplicado ao ensino da UERJ


Arroz e feijão, discos e livros 
