Relato biográfico, romance de autoficção, crônicas de uma história musical? A composição é aberta às mais diversas interpretações, com sua variedade de ritmos, modos e tempos formando um mosaico muito particular (e universal) de uma trajetória de vida construída em torno da arte. Henry Burnett faz da música literatura nesse livro delicioso, costurado com apuro e graça pelo fio da memória, compartilhando com o leitor suas vivências desde a infância no Pará até as viagens pelo mundo. Pontuada por diversos “takes” que podem ser lidos como ensaios autobiográficos e que ilustram o chamado da música para a vida, a narrativa nos traz o retrato do artista quando jovem sob o ponto de vista do escritor-filósofo já maduro, artista de muitas faces que estreia vigorosamente na literatura.
“Tem Belém, Ananindeua, Aberdeen, fotos em preto e branco, a tia de origem escocesa, Caetano, o ídolo absoluto, a igreja e suas promessas sensuais, Berlim, o pai perdulário, Drummond, o professor Benedito, tanta coisa desse Norte longínquo e inalcançável! Mais do que fixar imagens passadas ou eternizar recordações nostálgicas, o desafio constante que enfrenta o narrador aqui é de as acolher com certa suspeita, ironia, humor. E sobretudo, talvez, nelas detectar a matéria bruta que terá servido para canções onde foi sendo depositada por ele, apesar de tudo, uma esperança. De modo que aqui ou ali há uma estrofe saborosa, como cantar é trepar pra ter par. MPB do Norte, definiu um alguém, ‘o maior compositor da Pedreira’, fincou outro. Fica a impressão de que os fragmentos deste livro almejam sobretudo, muito modestamente, dar-lhes passagem.” [Peter Pál Pelbart]
“A construção narrativa é fragmentária, por vezes sem encaixes, com cortes não lineares. E a memória é sempre imprecisa e oscilante. Portanto, trata-se de uma aposta de outro tipo, pelo limiar de uma demanda distinta que, exterior aos meandros usuais, atravessa a literatura pelas extremidades, bordas ou mesmo ‘fora total’. É isso que Henry Burnett nos traz no conjunto dos seus fragmentos.” [Nilson Oliveira]


O baixo contínuo no Brasil 1751-1851
Todo abismo é navegável a barquinhos de papel
Pelos poros
Grito em praça vazia
Nas frestas das fendas
Cinzas do século XX
Histórias do bom Deus
Estrada do Excelsior
Um francês nos trópicos
Pedaço de mim
Cárcere privado 

