[Livro em pré-venda – envio a partir de 20 de fevereiro]
Em Mentiras, Adir ben Kauss aprofunda e radicaliza sua vocação para a narrativa curta, fazendo da brevidade um território de confronto entre o que se diz e o que se oculta, entre o que se inventa e o que se suporta como verdade. Cada conto – conciso, direto, por vezes incômodo – funciona como um golpe seco: poucas linhas bastam para expor as fissuras morais, afetivas e sociais que estruturam a experiência humana.
Do conto de abertura, que assume a mentira como matéria-prima da literatura, ao texto de encerramento, em que a verdade surge como ameaça e desordem, o livro se constrói como um arco tenso. Mentir, aqui, não é apenas falsear os fatos, mas recriar o vivido, distorcer a memória, proteger-se do real ou, paradoxalmente, iluminá-lo. As histórias transitam por temas como amor, desejo, culpa, fé, violência, solidão, intolerância, morte e redenção, sempre recusando explicações fáceis ou julgamentos confortáveis.
Os personagens que habitam estas páginas carregam contradições irreconciliáveis: dizem uma coisa, sentem outra, agem de modo oposto ao que afirmam defender. Em Mentiras, a verdade raramente aparece como valor absoluto; quando surge, é recebida com desconfiança, medo ou punição. Não por acaso, a fábula que ecoa no interior do livro — e reaparece como chave simbólica — sugere que a mentira bem contada pode ser mais humana, mais suportável e até mais justa do que a verdade nua.
O estilo de Adir ben Kauss permanece marcado pela precisão narrativa, pela economia de meios e pela intensidade psicológica. Seus contos não se encerram no ponto final: reverberam, inquietam, exigem releitura. Mentiras é um livro que desafia o leitor a reconhecer, sem complacência, o quanto de ficção sustenta nossas certezas e o quanto de verdade somos capazes — ou não — de suportar.


Parados e peripatéticos 
