[Livro em pré-venda – envio a partir de 5 de março]
Já no achado absolutamente irônico do título deste seu livro de contos – Se você não tem paz interior então você vem aqui pra capital –, Cesar Garcia Lima nos brinda com toda a sua inventividade. Cesar vem de uma longa trajetória na escrita, com uma obra que reúne livros de poesia e crônica, além de ter sido o organizador de um livro-entrevista com Adriana Lisboa e autor de ensaios sobre a relação entre literatura e jornalismo. É também roteirista e diretor de documentários.
Caleidoscópio de cenas urbanas, as diversas narrativas desta coletânea transitam entre o cotidiano de vidas minúsculas na megalópole (Escrito no dinheiro), a mitologia (As ilhas de Dédalo), o descentramento psíquico que faz lembrar os escritos de Stella do Patrocínio (Dia de visita), o homoerotismo (Prefiro a língua de Verlaine e Rimbaud), a visitação a personagens e autores literários, estes também, por sua vez, transformados em personagens (O show da estrela, Prefiro a língua de Verlaine e Rimbaud, O último palco de Tchékhov). Algumas dessas narrativas, pela alta voltagem da linguagem, ultrapassam a fronteira do conto e tangenciam o poema em prosa. É o caso dos surpreendentes Dia de visita e As ilhas de Dédalo. Verá o leitor que cada conto aqui reunido, sob diferentes ângulos, se propõe a um exercício de alteridade. A apreensão e compreensão da imagem do outro, como um espelho, acaba por nos devolver a própria imagem, revelando-nos em toda a nossa precária humanidade, o que pode ser observado em chave alegórica em O cisne. Nesse jogo de investigação e reconhecimento do eu refletido no outro, o conto Retirada assim termina, como que desejando nos transmitir uma mensagem: “Deus, entendeu ela, estava ocupado com tarefas maiores e ela mesma decidiu tomar providências.” Cabe a nós, portanto, a liberdade e a responsabilidade de tomar as rédeas de nossa vida e aprender a navegar entre as dificuldades e pequenezas do mundo.
Ruy Proença


