[Livro em pré-venda – envio a partir de 5 de junho]
Há romances que nascem da observação paciente do mundo; outros parecem brotar diretamente da oralidade, do exagero, da crença popular e do humor mais afiado. Um certo espírito imundo pertence a essa segunda linhagem — rara e irresistível. Em Curralinho, pequena cidade perdida entre poeira, garimpo e superstição, a morte de Dona Geralda, velha temida por toda a população, desencadeia uma sucessão de acontecimentos tão absurdos quanto profundamente humanos. Porque nem a morte consegue silenciar quem passou a vida inteira espionando, julgando e azucrinando os outros.
Ao redor desse acontecimento central, Adalto Costa constrói um romance povoado por figuras memoráveis: o pastor Waldemar Castilho, golpista carismático que transforma fé em espetáculo; Sassurana, garimpeiro bruto e errante; o menino Xuxu, lançado cedo demais à dureza do mundo; beatas, comerciantes, políticos oportunistas, jagunços, fofoqueiros e sonhadores de toda espécie. Todos circulam por uma narrativa em que o fantástico nunca rompe com a realidade — antes parece nascer dela, como continuação natural da miséria, da esperança e da imaginação popular.
Com linguagem viva, impregnada de oralidade nordestina, humor ferino e grande senso de ritmo, o romance avança entre aparições, boatos, golpes religiosos, garimpos abandonados, promessas de ouro e pequenas tragédias cotidianas. Há ecos da tradição picaresca brasileira, da literatura de cordel, do realismo fantástico e da sátira social, mas a voz que conduz o livro possui personalidade própria: irreverente, debochada, afetiva e profundamente brasileira. Entre o grotesco e a ternura, Adalto Costa cria um universo onde o sobrenatural convive naturalmente com a pobreza do sertão, e onde cada mentira, fofoca ou milagre improvisado revela algo essencial sobre os vivos — e também sobre os mortos. Mais do que uma narrativa sobre assombrações, este romance é um retrato espirituoso de um Brasil profundo, oral e contraditório, onde a fé, a malícia e a sobrevivência caminham sempre lado a lado.


