Não é fácil fazer um livro sobre autores que já foram estudados de muitas formas. No caso deste trabalho de Julia Cabo, o desafio se torna mais amplo por conta do nome que estampa seu título: Torquato Neto. O poeta, compositor, jornalista e polemista piauiense, apesar da curta vida (27 anos) e da breve obra publicada enquanto estava em atividade, é um dos mais estudados personagens que atuaram na cultura brasileira nos anos de 1960 e início de 1970. São publicações, filmes, peças de teatro e exposições que escrutinaram exaustivamente sua trajetória meteórica. Neste livro, porém, Julia encontra um percurso inédito de pesquisa ao abordar a edição das obras póstumas feitas a partir da produção conhecida e, até então, desconhecida de Torquato. Acompanhamos, principalmente, a concepção, feitura e recepção dos livros Os últimos dias de pauperia, feito em 1973, logo após sua morte, a reedição ampliada como o mesmo nome, em 1982, e os dois volumes de Torquatália, publicada em 2004. As duas primeiras, organizadas pelos seus amigos próximos, como Waly Salomão, e sua viúva, Ana Duarte, foram a porta de entrada de diversas gerações na obra contundente de Torquato. Já a terceira, organizada pelo jornalista e editor Paulo Roberto Pires, amplia o escopo desse acervo ao incluir textos de juventude e cartas inéditas, além de se dividir em dois volumes – basicamente, um com os escritos ligados ao ofício do jornalismo e o outro com a poesia, composições, diários e textos de caráter pessoal. No acompanhamento dessas publicações, Júlia Cabo nos apresenta as transformações da obra de Torquato e de sua recepção. Além disso, a autora articula sua pesquisa com reflexões conceituais decisivas ao pensar o tema da autoria, da escrita, da edição, do arquivo e, por fim, de uma obra marcada pelo fatalismo determinista de um suicídio. A trajetória de um poeta indigesto: construções e reconstruções da obra de Torquato Neto (1973-2005) é, portanto, um livro incontornável na fortuna crítica desse autor e uma contribuição decisiva para os estudos de literatura brasileira e das práticas e representações da contracultura no país.
Frederico Coelho


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