[Livro em pré-venda – envio a partir de 26 de maio]
Na sociedade oitocentista brasileira, esforços foram realizados pelas autoridades governamentais para constituí-la como nação livre e independente. Entre eles, viabilizar a abertura de escolas de primeiras letras constituiu-se em movimento importante nas principais cidades, principalmente no Rio de Janeiro, sede da Corte. Entretanto, as orientações presentes na Primeira Lei Geral de Educação, datada de 1827, eram voltadas para aqueles providos de cidadania brasileira. Afrobrasileiros na condição de escravizados eram proibidos de frequentar as escolas públicas, ao passo que livres e libertos, embora não sofressem com as mesmas interdições legais, também lidavam com sérias dificuldades para o ingresso no mundo escolar.
Barreira intransponível? Higor Ferreira, nesta obra, nos apresenta os resultados de pesquisa historiográfica, realizada com compromisso político e rigor teórico, e que demandou muita acuidade para localizar fontes alternativas que oferecessem as informações sobre ações realizadas por sujeitos pretos que, em meados do século XIX, desenvolveram iniciativas bem sucedidas para viabilizar o acesso à educação por crianças pretas, livres, libertas e mesmo ainda escravizadas. Na obra, Pretextato Silva, professor negro que estabeleceu escola para pretos e pardos na freguesia de Santíssimo Sacramento, e Israel Soares, militante da causa negra e pessoa de expressão na vida pública do Rio de Janeiro, que criou um curso noturno para negros escravizados e libertos em São Cristóvão, são focalizados. Além da narrativa sobre a trajetória da vida desses sujeitos, podemos acompanhar os caminhos percorridos pelo autor para encontrar registros das iniciativas e ações que não mereciam maior atenção das autoridades, e que mesmo precisariam permanecer desconhecidas, como as de Israel, porque ilegais. Destacam-se na obra, os 33 mapas elaborados pelo autor com base em tecnologia de georreferenciamento por meio da plataforma Imagine Rio, onde estão localizadas as escolas para meninos, meninas e mistas, criadas entre 1844 e 1884, bem como as de Pretextato e de Israel, fontes inéditas e preciosas que poderão ser utilizadas em pesquisas e estudos futuros em história da educação e das relações étnico-raciais. Ler sobre o funcionamento dessas escolas, seus estudantes, o cotidiano e a biografia de seus criadores, nos possibilita compreender como pretos – escravizados, livres e libertos apresentaram suas demandas e agiram para concretizá-las, o que demonstra que compreendiam a importância da leitura e da escrita para ações políticas que afirmassem sua presença na sociedade brasileira e na luta pela abolição da escravidão, o que a metáfora “Tintas da liberdade”, título da obra, traduz de forma expressiva e poética.
Ana Maria Monteiro
Professora emérita UFRJ


Luz sobre o caos 
