Mercuriais, dúbios, indecidíveis, os versos de Gabriela Marcondes nunca se estabilizam. Entre a precisão e a fluidez, os poemas desenham imagens volúveis e inquietas dentro de um caleidoscópio. Como Alice no País das Maravilhas, experimentamos a vertigem das metamorfoses, em que os sentidos se modificam feito fumaça. Afinal, “quebrar o brinquedo ainda é mais brincar”, diz Orides Fontela em uma das epígrafes. Em vez de se deparar com um coelho apressado, Gabriela, encontra, no outro lado do espelho, o mestre Bashô, que definiu o haicai como “o que está acontecendo aqui e agora”. Seu olhar contemplativo nos revela, assim, como amar o mundo: pássaros em vôo / asas escrevem / uma frase no céu.
Se por um lado, há a escassez dos meios, pois a síntese e o risco da ininteligibilidade são procedimentos de composição, por outro, os significados proliferam como nas correntezas moventes de um rio, em contínua mutação. As palavras nunca estão sozinhas, saltam de dentro das outras. Também do avesso surgem versos, o acaso amplia as margens, ler é inventar. O jogo verbivocovisual atravessa o livro, mostrando, por trás das imagens cotidianas, o tema da transformação, a princípio inconspícuo: “tudo que perdura / só dura porque / muda no tempo”.
Um célebre koan zen sugere que “as palavras fracassam”. Daí nasce a possibilidade da invenção. Na falha
brilham as fagulhas, lampejos imprevistos. Quando as coisas colapsam, enxergamos outros horizontes. É na “rachadura que o amor entra”, pois eros está na vizinhança do erro. Basta subtrair uma letra, produzir deslocamentos ínfimos, quase nadas, que, no entanto, mudam o rumo de tudo. Como o mago na carta do tarot ou um trickster, a poeta amplia a compreensão de que as palavras são generosas e fugidias, passíveis de recombinação ininterrupta. Num só gesto, os poemas neste “destino leia-se sentido” traduzem o que na linguagem falta e excede, restituindo às peças desmontadas do brinquedo sua capacidade mágica.
Luiza Leite


Teatro dos 4
Balaio
O mar que restou nos olhos
Cinco prefácios para cinco livros não escritos
Corvos contra a noite
Oceano
Como não agradar as mulheres
A gymnastica no tempo do Império
Da capo al fine
Machado de Assis
Linhagens performáticas na literatura brasileira contemporânea
Vida cotidiana e pensamento ecológico
O movimento queremista e a democratização de 1945
O fim do Brasil
Corpo em combate, cenas de uma vida
Nas frestas das fendas
A casa invisível
Vento, vigília
Todo abismo é navegável a barquinhos de papel
Cadernos de alguma poesia
Durante
Partidos e alianças políticas na "Moscouzinho do Brasil"
O que faço é música
O menor amor do mundo
Dicionário dos refugiados do nazifascismo no Brasil
Estou viva
Nenhum nome onde morar
Poesia reunida
Pedaço de mim 

