[Livro em pré-venda – envio a partir de 5 de abril]
a literatura soberana
O leitor que se aproxime deste livro de Antonio Puppin ficará talvez impressionado com a crispação existencial do título. Se tal leitor impressionável ceder à curiosidade pelo título do texto final, “Desespero e eternidade”, constatará que esse texto não pode sequer ser descrito como uma ficção: ele aspira antes ao ensaio estético-existencial, com coordenadas impostas por uma citação inicial de Cioran, que estabelece uma equivalência entre Deus e o Nada. Tal constatação poderia levar esse leitor a recuar na sua intenção de percorrer mais algumas páginas, o que seria não só uma pena, mas uma grande perda. Porque este livro, a que o autor deu o título Ensaios do Desespero, responde à questão existencial – “Que virtude, em rigor, há em viver?”, pergunta-se no texto final –, não por meio da adoção de uma filosofia ou da entrega a uma política, mas sim pela exaltação da arte, neste caso a literatura, única forma de superar o “terror da inexistência”.
Este é, pois, um livro para quem ama realmente a literatura, não necessitando de a justificar por cauções externas ou propósitos autobiográficos (e menos ainda autoficcionais). Todas as histórias que o integram têm algo a ver com a literatura, desde logo porque em quase todas encontramos a figura de alguém que escreve, que conta histórias (as suas ou as que os outros lhe contam), mas também alguém que, como em “Fortuna”, lê uma história de um escritor francês que resume com vantagem a que está a viver. No fundo, do que se trata é de reivindicar a soberania da literatura na sua relação com o mundo, o que implica também um perfil particular de autor, aquele que antes de ser escritor é leitor – e de género voraz, o mais propício a, como diria Jorge Luis Borges, criar os seus precursores ou, noutra ótica, que é a do conto “Um coração solitário”, concluir que é o Autor idolatrado quem acaba por roubar o livro do seu leitor-adorador. Não custa, aliás, recuperar a lista dos heróis literários de Puppin, já que se trata de um jogo sem cartas escondidas. O importante, contudo, não é isso e sim perceber que a pátria literária de Puppin é o mundo inteiro, o que implica um trânsito entre literaturas e idiomas em busca não de uma “Torre da Canção”, mas do júbilo da ficção.
Um júbilo, diga-se, escassamente celebratório, pois se por um lado cabe à ficção resgatar a vida ou interrogar o enigma do Mal, a verdade é que lendo o conto “O peso dos dias” não sabemos como reagir à evidência dolorosa do seu espetáculo grotesco (o da vida e o do Mal); e, no caso de “A triste história de Lilindo”, o humor negro dá mesmo a ver o preço a pagar por qualquer ilusão de fuga à vida já de si, e desde sempre, danificada. Talvez seja assim porque a entrega à arte vem com um preço, que pode ser o da indiferença, tal como se afirma no conto “O outro”; ou, no mesmo conto, o de “conviver com naturalidade com o horror da natureza humana, uma vez que o mal já não me surpreende”. Ou ainda porque, de novo em “Um coração solitário”, o escritor é aquele que “deveria saber mentir”. Mas, tudo somado e contado, como mentir à morte? O conto “O purgatório dos conformistas” propõe uma paródia disso, num epitáfio que começa por “A beleza é o suspiro das almas redentoras” e por aí vai até a predicar como “a labareda incansável na água profunda”. A reação do narrador é esclarecedora:
“Fui às lágrimas. Lindo, lindo”. Em resumo, nada nos resgata da infalível promessa do nada. Mas enquanto a ficção ensaia e a linguagem delira, o desespero recua, pois vê-se ao espelho e compreende que não é senão a repetição, com delay, de uma velha cena patética – e por isso sublime.
Osvaldo Manuel Silvestre


Quase música 
