Há um cronista à solta pelas ruas do Rio — ou melhor, alguém que observa o mundo como quem escuta uma música em fade out: atento aos tons que os outros não ouvem mais. Bernardo de Sá Earp compõe em Ironia contida um retrato sensível e cáustico da vida cotidiana, desses dias que passam e se repetem, mas às vezes, de súbito, revelam um detalhe desajustado, uma nota fora do compasso, uma fresta de absurdo — e é por essa fresta que ele escreve.
Neste livro, a ironia não é escudo nem gargalhada, mas um gesto de desalinho contra o banal. Ela surge discreta, quase tímida, como o sussurro de Seu Antônio ao servir o café na madrugada, ou a perplexidade de um sujeito que invade sem querer um fã-clube do Elvis.
Com humor melancólico e ritmo fluente, Bernardo transita da crítica social à filosofia de botequim, do lirismo amoroso ao existencialismo de fila de padaria, sempre com um olhar que recusa a indiferença.
Entre a crônica urbana e a parábola absurda, convivem personagens como Édipo da quebrada, Cândido do Catete e Voutaier de Volta Redonda, que transformam os mitos em matéria brasileira — e hilária. Há também devaneios sobre tempo, amor, futebol, pandemia e antidepressivos, tudo costurado com um estilo que parece despretensioso, mas é de quem sabe medir a distância exata entre o trágico e o cômico.
Como escreveu Luis Antonio Aguiar no prefácio, “as crônicas de Bernardo são o transe dessa insatisfação com a vida”. E é nesse desassossego que elas nos ganham: pela coragem de assumir a dor com ternura, o riso com sombra, a liberdade como risco. Um livro para quem sabe que viver, no fundo, é tentar não passar batido.


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