O conto começa a ser narrado quando um professor de Filosofia aguarda o enterro do José Matias, “um rapaz airoso”, “louro como uma espiga”, “destro cavaleiro”, “duma elegância sóbria e fina”, e que terminara, numa das últimas vezes em que fora visto pelo narrador, “metido num portal da Rua de S. Bento”, “[cheirando] abominavelmente a aguardente”. Por fim, este que vão enterrar “é um resto de bêbedo, sem história e sem nome”. José Matias amara Elisa Miranda, esposa do conselheiro Matos Miranda, já velho e diabético. Quando este morre, quando todos pensam que -cumprido o período habitual de luto -será então a hora de Elisa e José Matias se casarem, José Matias vai para o Porto, e de lá só retorna depois que sua amada, cansada de esperar, casa-se com o proprietário Torres Nogueira. Aí sim José Matias retorna à casa vizinha, para adorar “a divina Elisa”. Nova viuvez de Elisa, e o José Matias some de novo. Só reaparece, quando ela já tem um amante… Sim, José Matias não quer casar. É curioso que o século XIX venha se fechar, nas literaturas de língua portuguesa, com este conto de Eça, de 1897, e com o Dom Casmurro, de Machado de Assis, publicado em 1899, dois admiráveis testemunhos da perplexidade do homem diante da mulher. Bentinho decide sair deste impasse acusando Capitu. José Matias escolhe o caminho contrário: uma “adoração de monge, que nem ousa roçar com os dedos trêmulos e embrulhados no rosário, a túnica da Virgem sublimada”. Bentinho e José Matias nos mostram que não era o mundo que impedia o encontro perfeito dos amantes. Há algo no próprio amor que impede tal encontro (em que nada faltaria) que quase todo o século XIX nos vende como possível. A impossibilidade de fundir duas vidas numa só vida estivera disfarçada em impotência de amar no mundo, naquele mundo apresentado como hipócrita, mentiroso e venal. Depois do José Matias e de Bentinho, pudemos entender que o século que então vinha se encerrando também era destes dois tristes homens, que se vitimam na renúncia ao desejo.


Talvez nós dois tenhamos pensado na mesma pessoa
Para não dizer que não falei de Flora
Finais felizes
Isto não é um documentário
Poesia reunida
Noites que nunca terminam
Sodoma 

