Mais ridículo que

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Mais ridículo que

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ISBN: 9786559056590 REF: 9786559056590 Categoria:

Se o belíssimo poema de abertura deste livro já não nos convidasse ao necessário horizonte da suspeita (“Devia ter suspeitado, / pelo jeito que atravessava ruas / como quem se arremessa de um parapeito”), seríamos tentados a completar seu título interrompido (Mais ridículos que) com as pessoanas cartas de amor ridículas, o que sugeriria talvez um livro de amor endereçado; ou, seguindo a sinalização da epígrafe de Wislawa Szymborska, que afirma que ao ridículo de não escrever poemas se deve preferir o ridículo de escrevê-los, talvez imaginássemos adentrar um livro de irônica investigação do acontecimento e mesmo do não acontecimento (sim, porque quem alguma vez esteve minimamente vivo na vida sabe que ao passeio com o cachorro que tivemos justapõe-se sempre o passeio com o cachorro que nunca tivemos).

Ocorre que toda boa suspeita também suspeita de si mesma, e arrisco afirmar então que Thomaz Pereira, em seu poderoso livro de estreia, fez isso mesmo: investigou os possíveis (ridículos ou não) do amor e do fazer (“fazendo fazemo-nos / façamos”).

Alguém já disse que o poeta é “esse morcego cego que só pode voar graças à decifração de seu próprio grito rebatido nas coisas”. E para Thomaz, que imagina um antinarcísico mundo sem espelhos, onde seríamos mais pés que rostos, menos se deve contemplar alguma coisa do que quase esborrachar-se contra ela (por isso amar é calçada quebrada onde ralar os joelhos), forma de conhecimento do mundo que de fato corresponde a atravessar as ruas como quem se arremessa de um parapeito.

Impossível dar conta, no espaço de uma “orelha”, de tantas camadas e dimensões desse livro, escolho então chamar a atenção para os dois poemas que tematizam relógios desorbitados. Eles reforçam a tese de que a medida poética do tempo é mais complexa (Paul Celan: “sete rosas mais tarde”, Anne Sexton: “mil portas atrás”) que a dos aparelhos. Koselleck já demonstrou como “a introdução do relógio mecânico no século XIV causou, em longo prazo, uma desnaturalização da experiência temporal, levando à quantificação da duração do dia em 24 horas idênticas”, e relata “como as antigas medidas de tempo permanecem profundamente inseridas no contexto da ação humana. Em Madagascar, por exemplo, existe uma unidade de tempo para ‘a duração do cozimento do arroz’ ou para o tempo necessário para ‘grelhar um gafanhoto’. Medida de tempo e duração de uma ação ainda convergem por completo.” A citação é longa, mas aponta para uma dimensão fundamental deste livro, em especial no que diz respeito a pesquisar as relações ambíguas entre tempo e duração de uma ação.

E se me sobra espaço, queria ainda apontar a tensão entre dois sonetos decassilábicos: “Cai-cai” e “Não recuperar barcos carcomidos”. De um lado, o nascer, o primeiro balbuciar, o emergir das águas vivas e da luz. De outro, o que foi habitar a vala dos naufrágios. No espaço entre um e outro, a poesia prova que a vida é tudo o que tem cabimento.

Carlito Azevedo

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