Em O drama da consciência na tragédia shakespeariana, seu quinto livro pela 7Letras, Ronaldes de Melo e Souza renova seu propósito de estudar grandes escritores do cenário literário nacional e internacional, evidenciando o que há de mais singular em sua criação e empenhado numa interpretação compreensiva e não coercitiva de suas obras.
Por interpretação compreensiva entende o intérprete um modo de abordagem que extraia da própria obra os seus princípios formadores; a coerção explicativa, por outro lado,deduz de conceitos e teorias a priori o sentido do texto interpretado.
Na visão do estudioso, é na dramatização da consciência que reside a maior originalidade e a grande potência do teatro de Shakespeare. Armado de um pensamento crítico rigoroso e consistente, Melo e Souza não apenas rastreia com vigor e penetração o tema da consciência cindida em litígio consigo mesma em cinco das grandes tragédias shakespearianas, como demonstra que ele se configura numa forma dramática
especialmente desenvolvida para esse fim, forma não inventada pelo bardo inglês, mas por ele aprimorada e levada a uma culminância artística: o monodiálogo.
Não se trata da mera duplicação ou desdobramento de personalidades turbulentamente conflituosas, mas do reconhecimento radical da natureza complexa, ambígua, heterogênea, multifacetada e reticente do ser humano. A questão não é revelar como bons ou maus os caracteres humanos, mas espelhar a ampla gama de possibilidades das pulsões volitivas e afetivas que se apropriam de recursos reflexivos sofisticados para subjugar os interditos racionais e viabilizar os desígnios mais reclusos que se alojam nos refolhos da intimidade do homem. Se existiu um exímio leitor das controversas emoções humanas, esse foi Shakespeare. E se, no Brasil, houve um intérprete devotado à “causa emocional” na literatura, esse foi o Professor Ronaldes de Melo e Souza, que, desde o seminal Fenomenologia das emoções na tragédia grega (7Letras, 2017), afirma o primado das emoções sobre a pretensiosa clarividência da razão no comando do agir humano.
No capítulo dedicado a Ricardo III, investiga a vontade ávida de poder que arrebata o sinistro monarca. No estudo sobre Hamlet, demonstra que o monodiálogo assume, com o príncipe dinamarquês, “o dinamismo portentoso de uma genuína psicomaquia”. Em “A farsa de Iago e a tragédia de Otelo”, devota-se a comprovar o vínculo inextricável do cômico e do trágico que remonta ao mito e ao culto de Dioniso. Lear é considerada pelo intérprete a “mais sublime das tragédias shakespearianas”, porque encena a experiência do sofrimento do rei despojado de realeza como forma suprema da ironia dramática e da catarse trágica. Finalmente,
com a admirável interpretação de Macbeth, fecha o livro de forma orgânica, retomando a problemática da desenfreada vontade de potência. Ao contrário de Lear, o assassino de Duncan nada aprende com o sofrimento. Convulsionado pela fúria da ambição, torna-se cada vez mais obcecado em seu trajeto de iniquidades, mas, como atiladamente elucida o estudioso, não é o fazer que determina a sua ruína, mas o seu
próprio ser possuído pela volúpia do poder.
Maria Lucia Guimarães de Faria


Filosofia e (an)danças 
