Em Raro enigma, Albino Ernesto Poli Junior aprofunda uma investigação poética já esboçada em seu primeiro livro, Tergiversando, levando-a agora a um grau mais radical de elaboração formal e conceitual. Este segundo livro reafirma uma escrita voltada para o pensamento em movimento, em permanente tensão entre percepção, imagem e linguagem, como se cada poema testasse os limites do dizível diante da instabilidade do real.
A poesia aqui se constrói como campo de forças: entre o visível e o intangível, o concreto e o virtual, o acaso e a forma. Vórtices, espelhos, frestas, colinas, intervalos — as imagens recorrentes do livro apontam para estados liminares, zonas de passagem em que o sujeito poético se desloca, hesita, observa e refaz continuamente suas referências. Nada se fixa por completo: o mundo aparece como fluxo, duplicação, metamorfose, exigindo da linguagem não a transparência, mas o risco.
Há, nesses poemas, uma atenção insistente aos mecanismos da percepção e da imaginação, à maneira como a realidade se constitui por camadas, reflexos e simulacros. O poema não se apresenta como revelação definitiva, mas como ensaio, aproximação, gesto provisório. Pensar, amar, lembrar, desejar — tudo se dá sob o signo da impermanência, da oscilação e do limite.
Ao mesmo tempo, Raro enigma não abdica da experiência sensível: o corpo, o afeto, o erotismo, a paisagem e o cotidiano surgem atravessados por uma consciência crítica que interroga tanto o excesso quanto a falta, tanto a ilusão quanto a lucidez. Entre o rigor conceitual e a entrega lírica, Albino Ernesto Poli Junior propõe uma poesia que não busca decifrar o enigma, mas habitá-lo — consciente de que é nesse espaço instável que a imaginação encontra sua potência mais ativa.


Tergiversando 