Em seu relato da visita que fez a Goethe no dia 15 de janeiro de 1827, Eckermann conta que o velho escritor, então com 77 anos, tinha acabado de escrever uma novela, ainda sem título. Após a leitura da primeira parte da história, impressionado com a exatidão das descrições, ele pergunta a Goethe sobre o esquema usado para compor uma narrativa tão precisa. O autor lhe explica, então, que já tinha a intenção de desenvolver aquele tema trinta anos antes, embora inicialmente pretendesse fazer com ele um poema épico, e desde então o tivera em mente. Como, ao retomar a ideia, não havia encontrado o esboço antigo, de 1797, trabalhou a partir de um novo esquema, agora em prosa.
Quatorze dias depois, voltando ao assunto durante uma nova visita, Eckermann e Goethe discutiram sobre o título que deveria ser dado à novela, mas nenhuma das sugestões lhes pareceu justa. A solução foi proposta, em seguida, pelo próprio autor: “Sabe,” disse Goethe, “vamos chamar-lhe simplesmente de ‘Novela’, pois o que é uma novela senão um acontecimento inusitado? Esse é o conceito exato do que é novela, e muitas coisas que correm na Alemanha com o título de novela não passam de contos ou o que quer que sejam”.
Assim, com esse título genérico, uma das últimas histórias que Goethe escreveu, a partir de uma ideia antiga sobre um acontecimento inusitado, foi publicada pela primeira vez no décimo quinto volume de suas obras completas, em 1828, três anos antes da morte do maior nome da história da literatura alemã.


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