Ao longo da sua história, a Filosofia prestou muito mais atenção ao tempo do que ao espaço. O mistério da compreensão do tempo exposto por Agostinho, a prevalência do tempo na filosofia transcendental, no idealismo, no marxismo, na fenomenologia. Seja como fluir histórico, seja como psicológico, ou como ambos, o tempo prevaleceu sobre o espaço. Há, contudo, pensadores do espaço na história da filosofia, em particular, na filosofia contemporânea, que inspiraram o que veio a ser classificado nas ciências sociais como um “spatial turn”. É o caso mais evidente de Gaston Bachelard e Maurice Merleau-Ponty. Mas também, de forma talvez menos esperada, de Jean-Paul Sartre a partir do seu ensaio de ontologia fenomenológica.
É nesta leitura de Sartre como filósofo da espacialidade que esta obra de Lucrecia Corbella traz um primeiro grande contributo. Há, de facto, uma fenomenologia da espacialidade proposta pelo existencialista e que se traduz no desdobramento de relações de intersubjectividade através de relações de distância e proximidade, o corpo exposto ao olhar de outrem, com frente e costas, a fundar uma exterioridade, um mundo aí fora. Mas esta fenomenologia da espacialidade ainda não ecoava suficientemente nos estudos sartrianos até esta obra. E falo em eco por três razões. Porque eco é justamente a mais espacial expressão dos sentidos, o que ouvimos e fazemos ouvir a reverberar nas configurações que formam um espaço. Também porque, no caso do pensamento de Sartre sobre a espacialidade, as paredes que devolvem o eco teriam de encontrar o espaço cénico da sua criação dramatúrgica. Finalmente, porque Lucrecia Corbella convoca, com extraordinária sensibilidade, outro grande dramaturgo do século vinte, Luigi Pirandello, para estender o eco desta íntima cumplicidade entre espacialidade e intersubjectividade ao diálogo entre a obra teatral dos dois dramaturgos. Estes ecos são outros grandes contributos que este apaixonado trabalho de investigação traz à luz na forma de um magnífico livro.
André Barata


Camilo Castelo Branco e Machado de Assis em diálogo 
